Júlio

A NARRATIVA, em parceria com o Hospital Júlio de Matos, realizou um projecto artístico e formativo que contou com a participação de seis pacientes do hospital.

Sob a orientação dos fotógrafos Bárbara Monteiro e Mário Cruz, a fotografia foi explorada como meio de expressão e observação, abrindo espaço para o diálogo entre experiência pessoal e criação artística.

Entre Setembro e Dezembro de 2025, os participantes mergulharam num percurso que articulou prática fotográfica e pesquisa autoral. 

Cada um criou um trabalho pessoal a partir da relação direta com o espaço do hospital — as suas pessoas, a arquitetura, os gestos do quotidiano, os lugares de silêncio e de encontro. As obras resultantes revelam olhares singulares sobre um mesmo território, expondo tanto a dimensão física como a emocional e simbólica desse contexto.

A exposição propõe uma leitura plural do Hospital Júlio de Matos, onde a fotografia se afirma como ferramenta de partilha e de aproximação.

Autores: Bruno Oliveira, Carlos Vargas, Paula Mata, Ricardo Carvalho, Rúben Cruz e Sara Esteves.

A exposição está patente no átrio principal do Hospital Júlio de Matos, na Av. do Brasil, 53, em Lisboa.

Bruno Oliveira

JÚLIO nasce da atenção dirigida a um elemento que insiste em atravessar o quotidiano: a passagem constante de aviões sobre o hospital. O que para muitos é apenas ruído longínquo torna-se aqui presença incontornável — som, vibração e movimento que rompem o silêncio e invadem o pensamento.

Carlos Vargas

JÚLIO surge representado em objetos e lugares abandonados, silêncios que resistem ao tempo e à memória. Nos interstícios do hospital, revelam-se marcas do que foi usado, perdido ou simplesmente esquecido. A aproximação é quase arqueológica: cada ruína é tratada como indício de uma presença que mudou de forma, permanecendo apenas como vestígio do que ali existiu.

Paula Mata 

JÚLIO é parte do auto-retrato que serve como espelho da própria presença no hospital, explorando o quarto como espaço íntimo, quase doméstico, onde a vida se organiza entre interioridade e partilha. As imagens atravessam o limiar entre casa e instituição, mostrando como um lugar clínico pode, pouco a pouco, transformar-se em ambiente habitado numa coexistência entre vulnerabilidade e afirmação, onde o quarto surge como território de permanência e identidade. 

Ricardo Carvalho 

JÚLIO nasce da atenção à arquitectura do hospital, à forma como o espaço se organiza, se impõe e se oferece a quem o percorre, evidenciando a presença física do edifício enquanto estrutura que molda trajectos. 

Rúben Cruz 

JÚLIO surge como um micro-cosmos onde o tempo flui de forma irregular e revela dimensões ocultas do quotidiano. As imagens funcionam como um negativo simbólico, invertendo o que é visível à superfície para expor fragilidades e ritmos normalmente inacessíveis ao olhar apressado. Através dessa inversão, revelam-se camadas de humanidade que se insinuam entre luz, sombra e identidade, convidando o observador a reavaliar o lugar e quem o habita.

Sara Esteves  

JÚLIO emerge do encontro com a natureza que envolve o hospital, onde cada elemento se torna metáfora para sentimentos e pensamentos em trânsito na espuma dos dias. Os espaços verdes funcionam como superfícies de reflexão, onde inocência e introspecção se entrelaçam num diálogo silencioso — um diálogo que, ainda assim, convoca a presença do outro, mesmo quando esse outro parece ausente.