OPEN CALL
EMERGENTES
2026


Na 5.ª edição do CICLO, a NARRATIVA quer dar a conhecer novos autores emergentes e contribuir para a visibilidade dos seus projectos fotográficos.

A NARRATIVA recebeu 67 candidaturas para a Open Call Emergentes 2026.

Dando continuidade às edições anteriores, esta Open Call voltou a revelar uma qualidade assinalável dos trabalhos apresentados por fotógrafos emergentes de diferentes contextos geográficos.

Excepcionalmente, a NARRATIVA decidiu distinguir quatro autores, em vez dos habituais três, atendendo à qualidade global das propostas apresentadas.

A apresentação dos projetos está agendada para o dia 3 de Maio, às 16h30, na NARRATIVA.

VENCEDORES

ADRIANA MORAIS

ANDRÉ CABRERA

CHRISTOPHER BERWING

CI DEMI

ADRIANA MORAIS

  • Como consegues ficar com tesão enquanto eu desapareço?

    Este projeto surge depois do trauma, depois da violação. Durante dezasseis anos, dentro de uma relação romântica íntima, existiu abuso — violações mascaradas de amor, desejo, cuidado e normalidade. Foram precisos muitos anos para compreender o que estava a acontecer, e essa compreensão continua a ser descoberta. Não houve consentimento, apenas silêncio, agradar, manipulação e um corpo que aprendeu a ceder para continuar a ser amado.

    As fotografias não retratam o ato em si. Falam do que veio depois — do que ficou, do que insistiu em viver ou sobreviver. Há brilho, excesso, celebração: ruas, amigos, protestos, corpos, sexo e a re-descoberta do sexo. São imagens de sobrevivência que recusam o silêncio.

    Este trabalho fala de uma re-descoberta difícil: uma sexualidade atravessada pelo medo e ainda assim procurada; um corpo a reaprender a pertencer a si próprio. Não como um processo linear de cura, mas como uma luta diária — com recaídas, dor, raiva, prazer, culpa, vergonha e força.

    Não é um fim. É um depois.

    E o depois é barulhento.

    O trauma também dança. O trauma também sorri. O trauma também fode.

ANDRÉ CABRERA

  • Este projeto examina a migração e as condições precárias de habitação na área metropolitana de Lisboa, e como estas entram em choque com narrativas políticas, questionando que futuro permanece disponível para as gerações mais jovens.

    O meu interesse surge da observação de como as cidades europeias se transformam rapidamente, tanto a nível demográfico como urbano, através da gentrificação. Abordo esta transformação como capítulos interligados. Através de pesquisa teórica, investigo a migração e a precariedade como consequências de desigualdades estruturais, negligência política e sistemas económicos, em vez de responsabilidade individual. O projeto centra-se nos bairros autoconstruídos portugueses da Penajóia e do Raposo, em Almada, do outro lado do rio em relação a uma Lisboa impulsionada pelo turismo. O trabalho é contextualizado pelas crises habitacionais do pós-revolução, legados coloniais e políticas contemporâneas de trabalho e habitação. Com base em fontes históricas, estudos sociopolíticos e análise mediática, examino como a migração é repetidamente instrumentalizada como bode expiatório para falhas sistémicas.

    Metodologicamente, o projeto opera através de duas plataformas. A primeira é um trabalho fotográfico de longo prazo na Penajóia e no Raposo, utilizando uma fotografia lenta e observacional para enfatizar materiais de construção, compressão espacial e a ausência de recursos básicos como água e eletricidade. A segunda combina imagens encenadas, informadas por conversas com residentes e narrativas mediáticas, com material de arquivo, em particular As Armas e o Povo (1975), revelando que as primeiras bidonvilles foram construídas por cidadãos portugueses durante a ditadura.

    A minha posição desafia narrativas que culpam os imigrantes pelo colapso social. Com um salário mínimo de 920€ e rendas a partir de 800€ por 50m², a instabilidade está a tornar-se uma condição partilhada. O projeto questiona como a redondeza de Lisboa é cada vez mais moldada para a riqueza e o turismo, enquanto os seus residentes são deslocados, silenciados e apagados.

CHRISTOPHER BERWING

  • As a Flower Blooms acompanha corpos jovens, masculinos ou lidos como masculinos, no gesto de se elevarem – para dentro das árvores, em direção ao céu, para o espaço aberto de um futuro imaginado. Em territórios exteriores e periféricos, sobem, saltam e apoiam-se uns nos outros com uma energia sem direção definida, mas carregada de expectativa. A juventude surge aqui como uma estação breve e, ainda assim, completa, em que o eu permanece próximo de uma página em branco: não vazio, mas ainda não marcado por expectativas, papéis ou narrativas prescritas.

    No espaço público, a sua presença compõe esculturas sociais temporárias, onde se ensaia a proximidade e a visibilidade, enquanto se experimenta o que pode significar ser homem hoje.

    O grão e a desfocagem da película insistem numa presença imperfeita. Em diálogo com as Novas Masculinidades, o trabalho propõe que jovens homens possam surgir alegres, gentis e em busca, sem se fixarem numa forma única.

CI DEMI

  • Unutursan Darılmam (No Offence If You Forget)

    Tudo nesta história se desenrola dentro de um apartamento em Istambul.

    Em 2019, o fotógrafo passou por um grave episódio depressivo que o confinou à sua casa durante um ano. As suas únicas saídas consistiam nas consultas com o psiquiatra e em breves viagens ao centro da cidade.

    Com o passar dos meses de isolamento, a cidade de dezasseis milhões de habitantes tornou-se uma memória distante, transformando-se numa entidade monstruosa e em constante mudança.

    O fotógrafo agarrou-se às poucas fotografias que conseguiu fazer, dedicando cada momento de vigília a estudá-las, a editá-las, a organizá-las e a escrever sobre elas.

    A sociedade vê muitas vezes a saúde mental como uma luta pessoal, sendo o isolamento uma consequência comum. Este trabalho, no entanto, exterioriza as batalhas do autor, refletindo o impacto de uma doença bipolar recém-diagnosticada nas várias facetas de Istambul.

    As fotografias captam tanto o quotidiano da metrópole como as emoções que estes momentos evocam no fotógrafo, oferecendo um vislumbre de uma mente fortemente medicada. As cenas retratadas são serenas, por vezes arrepiantes, frequentemente inquietas, mas estranhamente amorosas.

    Uma questão central emerge: quem está a ser esquecido, o fotógrafo ou a cidade? Através da fotografia, este conjunto de obras cria uma memória partilhada tanto para o autor como para a cidade; uma coleção de imagens para revisitar quando a luta abrandar.

CONSULTA O PROGRAMA DO CICLO NARRATIVA 2026 AQUI.